1.4.08

ESTAMOS DE MUDANÇA

Estamos de mudança. Para saber o novo endereço, clique aqui.
Não abandonaremos a casa, apenas a mudaremos de função. Doravante, todos os textos aqui publicados terão um caráter mais pessoal e intimista e, no mais das vezs, publicado em caipira. Sonho antigo que pode interessar a poucos, por isso, no novo espaço, melhor e remodelado, haverá mais do velho estado anarquista. Aqui será apenas a casa de alguns blogueiros de lá exporem mais que suas idéias, coisas que lhes vierem à alma.

30.3.08

LA NUESTRA MEDIA QUISLING

Por Luiz Carlos Azenha, do Viomundo

SÃO PAULO - Costumo dizer que, se houver uma crise entre o Brasil e os Estados Unidos, a mídia brasileira se colocará à disposição do Departamento de Estado americano para oferecer a Washington mais espaço que ao governo brasileiro. No Equador já está acontecendo. Diante da crise entre o país e a Colômbia, que estão com as relações diplomáticas cortadas, as emissoras de TV privadas locais e os principais comentaristas políticos assumiram a defesa da Colômbia, tanto na repercussão dos acontecimentos quanto na opinião a respeito deles.

O que assistimos hoje no Brasil, em torno de um suposto dossiê, é uma crise artificial criada pela revista Veja, com apoio da Folha, Estadão, TV Globo e adjacências. Esse filme já assistimos no passado. "Especialistas" são convocados para dizer que o governo vai cair, ou que vai perder a eleição, ou que fulana ou sicrano estão fritos. É, essencialmente, uma ação eleitoral defensiva que tem o objetivo de queimar uma possível candidata à presidência da República.

Porém, qual foi a decisão estratégica do governo Lula desde sempre? Buscar uma acomodação com a mídia tradicional, fortalecendo-a com propaganda oficial - na casa dos milhões e milhões de reais. É como dar Biotônico Fontoura àqueles que querem te fazer sangrar. Até agora a estratégia de acomodação deu certo, se considerarmos a mais recente pesquisa de opinião a respeito do governo.

Mas já dá para sentir o afastamento de vários aliados à esquerda do governo Lula. O que dizem? Que o governo é unha-e-carne com a mídia tradicional, que são duas faces da mesma moeda. Mais: que o surgimento de uma mídia independente e plural - baseada em rádios e TVs comunitárias, em sites da internet e outros meios - não interessa ao governo Lula, uma vez que ele ficaria sujeito a críticas à esquerda.

O jornal equatoriano El Comercio minimizou a denúncia do presidente com um parágrafo: "É uma pena que haja estes apátridas, que em seu papel de comunicadores apóiam a conduta do governo colombiano", disse. E mais: São "um punhado de apátridas hipócritas".

O que tem acontecido no Equador? A Teleamazonas, por exemplo, uma das principais emissoras de TV do país, reproduz qualquer acusação feita contra o Equador pelo governo da Colômbia, inclusive com uso de imagens das emissoras colombianas RCN e Caracol.

Para efeito de comparação, é o mesmo que, em uma crise entre Brasil e Argentina que leve os países a romper relações diplomáticas, a TV Globo dar cinco minutos no Jornal Nacional para acusações do governo argentino e três para apresentar a defesa do governo brasileiro. Não acredito que a Globo faria isso no caso, mas não tenho qualquer dúvida de que faria se a crise fosse entre Brasil e Estados Unidos, especialmente entre os governos Lula e Bush.

"A TV Equador é a televisão pública do Equador, que os seus filhos poderão ver sem se preocupar, sem o espírito de busca de audiência; asseguramos que será um canal educativo, resgatando os valores, a culinária, com informação veraz e imparcial", afirmou Correa a respeito da tv pública equatoriana, que em breve será inaugurada.

Ele fez acusações tanto contra o ministro de Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, quanto contra o chanceler daquele país, Fernando Araújo, a quem acusou de promover a propaganda contra seu governo.

ARQUIVOS DIVULGADOS PELA COLÔMBIA MOSTRAM TENTATIVA DA VENEZUELA DE ARMAR REBELDES

A manchete acima foi divulgada neste domingo pelo New York Times, em reportagem assinada pelo correspondente Simon Romero, desde Bogotá.

"Arquivos oferecidos por autoridades colombianas de computadores que eles dizem ter sido capturados num ataque em território do Equador parecem ligar o governo da Venezuela à tentativa de conseguir armas para a insurgência da Colômbia", diz o primeiro parágrafo.

"Autoridades que participam da investigação dos computadores deram ao New York Times cópias de mais de 20 arquivos, alguns dos quais mostram contribuições dos rebeldes à campanha do presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa."

"Se certificados, os arquivos ofereceriam uma visão da natureza do mais antigo conflito da América Latina, incluindo a morte de um espião do governo da Colômbia com microchips implantados no corpo, um crime aparentemente cometido pelos rebeldes em seu esconderijo na selva."

Os grifos são meus.

Temos dois problemas com esse tipo de reportagem. Em primeiro lugar, ela é baseada em fonte anônima que tem interesse no conteúdo. Em segundo lugar, o correspondente faz ilações a partir de supostas mensagens contidas em arquivo de computador. Se eu escrevo um e-mail dizendo que pretendo arrecadar 200 mil dólares para a campanha do prefeito Kassab não significa que eu tenha arrecadado o dinheiro, nem que tenha feito a contribuição.

Porém, está lá no texto a respeito dos arquivos que "some of which also showed contributions from the rebels to the 2006 campaign of Ecuador's leftist president, Rafael Correa". Traduzindo: "...alguns dos quais mostram contribuições dos rebeldes para a campanha de 2006 do presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa."

Em nome da verdade factual, o Simon Romero deveria ter escrito que houve referência, em suposta troca de mensagens, a uma possível contribuição.

No quinto parágrafo do texto: "Embora tenha sido impossível verificar a autenticidade dos arquivos, as autoridades colombianas disseram que seu governo havia convidado a Interpol para analisá-los. As autoridades não quiseram se identificar alegando que a investigação da Interpol está em andamento."

De acordo com a reportagem, um total de 16 mil arquivos foram recuperados. O vice-presidente da Colômbia, Francisco Santos, disse que os laptops sobreviveram ao bombardeio por que estavam protegidos por caixas de metal.

"Pessoalmente eu não me arrependo de nada, de absolutamente nada, mas eu sou ministro de um governo que concordou que esse tipo de ação não seria repetida", disse o ministro de Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos. "Naturalmente isso depende de nossos vizinhos colaborarem na luta contra o terrorismo", afirmou.

"A principal arma que eles têm agora é o computador, o suposto computador de Raúl Reyes", disse Hugo Chávez a respeito. "O computador é como serviço à la -carte, dando a você o que você quiser. Quer bife? Peixe frito? Bem passado? Você terá o que o império decidir", afirmou.

De acordo com uma carta que teria sido encontrada no computador, datada de 25 de janeiro de 2007, um dos integrantes do secretariado de sete membros das FARC, Iván Marquez, teria se referido a um certo Carvajal dizendo que "ele foi embora com a promessa de que traria um vendedor de armas do Panamá."

Carvajal, de acordo com o New York Times, seria o general Hugo Carvajal, diretor de inteligência militar da Venezuela.

"A divulgação dos arquivos acontece em um momento delicado, quando alguns legisladores em Washington estão pressionando para que a Venezuela seja incluída na lista de estados que patrocinam o terrorismo. Mas com a Venezuela entre os maiores fornecedores de petróleo dos Estados Unidos, tal decisão é considerada improvável por causa dos limites no comércio que imporia", diz o texto do New York Times.

...

25.3.08

Que farei, meu Deus, se tu pereceres?
Tu és o meu vaso - e se te quebras?
Tu és minha água - e se secas?
Tu és minha roupa e meu trabalho
Contigo perco o meu sentido.
Depois de tu não terei um lugar
Onde as palavras ardentes me saúdem.
Dos meus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás minha ampla túnica.
Meu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebes,
Irei te procurar por largo tempo
E me deitarei, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farei eu, meu Deus? O medo me domina.

Rainer Maria Rilke

21.3.08

DISCURSO AO POVO ESTADO-UNIDENSE

"Nós, o povo, com o objetivo de formar uma União mais perfeita.

Duzentos e vinte e um anos atrás, em um salão que ainda existe do outro lado da rua, um grupo de homens se reuniu e, com estas palavras simples, lançou a improvável experiência em democracia dos Estados Unidos. Agricultores e estudiosos; estadistas e patriotas que atravessaram um oceano para escapar da tirania e de perseguição religiosa finalmente leram sua verdadeira declaração de Independência numa convenção da Filadélfia que atravessou a primavera de 1878.

O documento que eles produziram eventualmente foi assinado, mas nunca concluído. Foi manchado pelo pecado original desta nação, a escravidão, uma questão que dividiu as colônias e levou a convenção a um impasse, até que os fundadores decidiram permitir que o comércio de escravos continuasse por mais vinte anos, deixando qualquer resolução final para as futuras gerações.

Naturalmente, a resposta para a questão da escravidão já estava contemplada em nossa Constituição - uma Constituição que tinha em seu núcleo a igualdade dos cidadãos diante da lei; uma Constituição que prometeu ao povo liberdade, justiça e uma união que poderia e deveria ser aperfeiçoada com a passagem do tempo.

E ainda assim palavras em um pergaminho não foram suficientes para livrar os escravos da servidão, ou garantir a homens e mulheres de todas as cores e credos seus direitos e obrigações como cidadãos dos Estados Unidos. Seriam necessárias gerações sucessivas de americanos dispostos a fazer sua parte - através de protestos e lutas, nas ruas e nos tribunais, em uma guerra civil e com desobediência civil e sempre correndo grande risco - para reduzir a distância entre a promessa de nossos ideais e a realidade de seu tempo.

Esse foi um dos objetivos estabelecidos no início desta campanha - continuar a longa marcha daqueles que vieram antes de nós, a marcha pelos Estados Unidos mais justos, mais iguais, mais livres, mais acolhedores e mais prósperos.

Eu decidi concorrer à presidência nesse momento da História porque acredito profundamente que não podemos enfrentar os desafios de nosso tempo a não ser que o façamos juntos - a não ser que aperfeiçoemos nossa União entendendo que podemos ter origens diferentes, mas temos também esperanças comuns; que não somos parecidos, nem viemos dos mesmos lugares, mas todos queremos ir na mesma direção - em busca de um futuro melhor para nossos filhos e netos.

Essa crença vem de minha fé indossolúvel na decência e na generosidade do povo americano. Mas também vem de minha própria história.

Sou filho de um homem negro do Quênia e de uma mulher branca do Kansas. Fui criado com a ajuda de um avô branco que sovreviveu à Depressão e lutou no exército de Patton durante a Segunda Guerra Mundial e de uma avó branca que trabalhou numa fábrica de bombardeiros em Fort Leavenworth enquanto o marido estava além-mar. Fui a algumas das melhores escolas dos Estados Unidos e vivi em uma das nações mais pobres do mundo. Sou casado com uma negra americana que carrega nela o sangue de escravos e donos de escravos - uma herança que passamos às nossas duas preciosas filhas. Eu tenho irmãos, irmãs, sobrinhas, sobrinhos, tios e primos de todas as raças e tons de pele, espalhados em três continentes e, enquanto viver, jamais vou esquecer que em nenhum outro lugar da Terra minha história seria possível.

É uma história que não me tornou o candidato mais convencional. Mas é uma história que introduziu em minha herança genética a idéia de que esta Nação é mais do que a soma de suas partes - de todas as que existem, somos verdadeiramente únicos.

Ao longo do primeiro ano desta campanha, contra todas as previsões, vimos a fome do povo americano pela mensagem de unidade. Apesar da tentação de ver minha candidatura puramente através de lentes raciais, conseguimos grandes vitórias em estados com algumas das populações mais brancas do país. Na Carolina do Sul, onde a bandeira da Confederação ainda tremula, construímos uma poderosa coalizão de afroamericanos e americanos brancos.

Isso não significa negar que a questão racial faz parte de nossa campanha. Em vários estágios, alguns comentaristas me chamaram ou de muito negro ou de não suficientemente negro. Vimos tensões raciais emergir durante a semana que antecedeu as prévias da Carolina do Sul. A mídia rastreou todas as pesquisas de boca-de-urna em busca de indícios de polarização racial, não apenas em termos de brancos e negros, mas negros e morenos também.

Ainda assim, apenas nas semanas mais recentes o debate racial tomou um caminho particularmente divisionista.

De um lado, ouvimos a sugestão de que minha candidatura de alguma forma é exercícios das políticas de ação afirmativa; que se baseia somente no desejo de liberais de comprar reconciliação racial pagando pouco. De outro lado ouvimos meu ex-pastor, o reverendo Jeremiah Wright, usar linguagem incendiária para expressar opiniões que têm o potencial não só de aumentar a divisão racial, mas de denegrir tanto a grandeza quanto a bondade de nossa Nação; e isso com ofendeu tanto brancos quanto negros.

Já condenei, de forma inequívoca, as declarações do reverendo Wright que causaram tal controvérsia. Para alguns, algumas dúvidas persistem. Eu sabia que ele foi ocasionalmente um crítico feroz da política doméstica e exterior dos Estados Unidos? Naturalmente. Alguma vez ouvi declarações controversas dele enquanto estava na igreja? Sim. Discordei fortemente de muitas das opiniões políticas dele? Claramente - assim como muitos de vocês já ouviram declarações de seus pastores, padres ou rabinos das quais discordaram frontalmente.

Mas as declarações que causaram a recente tempestade não foram simplesmente controversas. Não foram apenas resultado da tentativa de um líder religioso de falar contra uma injustiça. Em vez disso, expressaram uma visão distorcida deste país - uma visão em que o racismo branco é endêmico, que eleva o que está errado com os Estados Unidos acima de tudo o que está certo; uma visão que vê os conflitos no Oriente Médio primariamente como resultado das ações de aliados como Israel, em vez de emanados da ideologia perversa e odiosa do islamismo radical.

Assim sendo, as declarações do reverendo Wright não foram apenas errôneas, mas divisivas, divisivas em um período em que precisamos de unidade; racilamente carregadas em um momento em que precisamos de união para confrontar uma série de problemas monumentais - duas guerras, a ameaça terrorista, uma economia decadente, uma crise de saúde pública e mudanças no clima potencialmente devastadoras; problemas que não são de negros, brancos, latinos ou asiáticos, mas problemas que desafiam a todos nós.

Dada minha origem, minha carreira política e meus valores e ideais, não há dúvida de que haverá aqueles para os quais minhas declarações e condenações não são suficientes. Por que me associei com o reverendo Wright? Por que não procurei outra igreja? Confesso que se tudo o que eu conhecesse do reverendo Wright fossem os trechos de sermões repetidos continuamente na televisão e no You Tube - ou se a Igreja Unida da Trindade fosse a caricatura vendida por alguns comentaristas - não há duvida de que reagiria da mesma forma.

Mas a verdade é que isso não é tudo o que conheço do homem. O homem que encontrei há mais de vinte anos é o homem que me ajudou a adotar a fé cristã; o homem que falou de nossa obrigação de amar uns aos outros; de cuidar dos doentes e ajudar aos pobres. Ele é um homem que serviu a este país como fuzileiro naval; que estudou e deu palestras em algumas das mais importantes universidades e seminários e que por mais de trinta anos dirigiu uma igreja que serviu à comunidade fazendo na terra o trabalho de Deus - ao abrigar os sem-teto, alimentar os necessitados, dar creche e bolsas de estudo, pregar nas prisões e sair em busca daqueles que sofrem de AIDS.

DISCURSO AO POVO ESTADO-UNIDENSE: PARTE II

Em meu primeiro livro, Sonhos de Meu Pai, descrevi a experiência de meu primeiro culto:

"Fiéis começaram a gritar, a se levantar dos assentos e a bater palmas, como se um vento carregasse as palavras do reverendo pela igreja... E naquela simples nota - esperança! - eu ouvi algo diferente; aos pés da cruz, dentro das milhares de igrejas de toda a cidade, eu pensei nas histórias comuns das pessoas negras se fundindo com as de Davi e Golias, de Moisés e do Faraó, dos cristãos nas jaulas dos leões, do campo de ossos secos de Ezequiel. Essas histórias - de sobrevivência e liberdade e esperança - se tornaram nossas histórias, minha história; o sangue que foi derramado foi nosso sangue, as lágrimas nossas lágrimas; assim que aquela igreja negra, naquele dia claro, parecia ser de novo uma nave carregando a história de nosso povo para futuras gerações e para um mundo mais amplo. Nossas atribulações e triunfos, ao mesmo tempo únicas e universais, negras e mais do que negras. Ao descrever nossa história, os episódios e a música nos permitiram resgatar memórias das quais não tínhamos vergonha... memórias que todos poderiam estudar e celebrar - e com as quais poderíamos começar a reconstrução."

Essa tem sido minha experiência na Trindade. Como em outras igrejas proeminentes em todo o país, a Trindade encampa toda a comunidade negra - o médico e mãe que depende de ajuda pública, o estudante modelo e o ex-bandido. Como outras igrejas negras, os cultos da Trindade são cheios de gargalhadas e algumas vezes de humor vulgar. São repletos de dança, de palmas, de gritos - que podem assustar ouvidos que não estão acostumados. A igreja contém em si toda a bondade e a crueldade, a tremenda inteligência e a chocante ignorância, as lutas e sucessos, o amor e, sim, a amargura e o preconceito que fazem parte da experiência negra americana.

E talvez isso ajude a explicar meu relacionamento com o reverendo Wright. Ele pode ter sido imperfeito, mas é como um integrante da família. Ele reforçou minha fé, celebrou meu casamento e batizou minhas crianças. Nunca ouvi em minhas conversas com ele qualquer referência a grupos étnicos em termos depreciativos; nunca o vi tratar os brancos que não fosse com cortesia e respeito. Ele carrega as contradições - as boas e as ruins - da comunidade à qual serviu com dedicação por tantos anos.

Não posso deserdá-lo assim como não posso deserdar a comunidade negra. Não posso deserdá-lo assim como não posso fazer isso com minha avó branca - a mulher que ajudou a me criar, a mulher que se sacrificou continuamente por mim, a mulher que me ama mais do que a qualquer coisa nesse mundo, a mesma mulher que certa vez confessou ter medo de homens negros que passavam por ela nas ruas, e que em mais de uma ocasião repetiu estereótipos raciais ou étnicos que me espantaram.

Essas pessoas fazem parte de mim. E são parte dos Estados Unidos, um país que eu amo.

Há os que vão ver nisso uma tentativa de justificar ou desculpar comentários que são indesculpáveis. Posso garantir que não se trata disso. O mais seguro politicamente talvez fosse mudar de assunto e esperar que o episódio fosse esquecido. Podemos simplesmente considerar o reverendo Wright um caduco ou demagogo, da mesma forma que Geraldine Ferraro foi desprezada logo depois de suas declarações recentes, como se abrigasse um profundo preconceito racial. Mas acredito que a questão racial não pode ser simplesmente ignorada. Cometeríamos o mesmo erro que o reverendo Wright cometeu em seus sermões ofensivos sobre os Estados Unidos - simplificar, estereotipar e amplificar os pontos negativos que distorcem a realidade.

O fato é que os comentários que foram feitos e as questões que surgiram nas últimas semanas refletem as complexidades da questão racial neste país, sobre as quais nunca realmente nos debruçamos - parte de nossa União que ainda precisamos aperfeiçoar. Se nos afastarmos agora, se simplesmente recuarmos cada qual para seu canto, nunca conseguiremos nos unir e enfrentar os desafios na saúde, na educação, a necessidade de conseguir bons empregos para todos os americanos.

Entender essa realidade requer relembrar como chegamos até aqui. Como William Faulkner uma vez escreveu, "o passado não está morto e enterrado. Na verdade, ele nem mesmo passou." Não precisamos repetir aqui a história da injustiça racial nesse país. Mas precisamos relembrar que muitas das disparidades que existem hoje na comunidade afroamericana podem ser ligadas diretamente a gerações passadas que sofreram o legado brutal da escravidão e de Jim Crow.

Escolas segregadas eram e são escolas inferiores; ainda não foram consertadas, cinquenta anos depois do caso Brown v. Board of Education - e a educação de baixa qualidade que ofereceram e oferecem ajuda a explicar a diferença entre as conquistas de estudantes brancos e negros.

Discriminação legalizada - quando negros foram impedidos, muitas vezes através de violência, de ter posse de propriedade, de receber empréstimos, de ter acesso às hipotecas da agência de habitação, ou foram excluídos de sindicatos, da força policial, do corpo de bombeiros - significa que famílias negras não puderam acumular qualquer riqueza para passar a futuras gerações. Essa história ajuda a explicar a diferença de renda entre negros e brancos e os bolsões de pobreza que persistem hoje em comunidades rurais e urbanas.

A falta de oportunidade econômica para homens negros, a vergonha e a frustração de não poder sustentar os próprios filhos contribuíram para a erosão das famílias negras - um problema que as políticas oficiais de ajuda tão duradouras podem ter contribuído para aprofundar. E a falta de serviços básicos para tantos bairros negros urbanos - parques para crianças, policiamento, coleta regular de lixo - ajudou a criar um ciclo de violência e uma negligência que continua a nos assombrar.

Essa é a realidade na qual o reverendo Wright e outros afroamericanos desta geração cresceram. Eles se tornaram adultos no final dos anos 50 e nos anos 60, uma época em que ainda havia segregação oficial e as oportunidades eram sistematicamente negadas. O que impressiona não é quantos fracassaram diante da discriminação, mas quantos homens e mulheres venceram; o que impressiona é quantos conseguiram abrir um caminho num beco sem saída para pessoas que viriam depois, como eu.

Mas para todos aqueles que se esfolaram com o objetivo de conseguir uma fatia do sonho americano, houve muitos que não conseguiram - aqueles que foram derrotados, de uma maneira ou de outra, pela discriminação. Esse legado da derrota foi passado adiante para futuras gerações - aqueles meninos e crescentemente meninas que vemos nas esquinas ou nas prisões, sem esperança ou perspectiva de futuro. Mesmo para os negros que avançaram, as questões relativas a raça e ao racismo continuam a definir o modo de ver o mundo de forma fundamental. Para os homens e mulheres da geração do reverendo Wright, as memórias de humilhação e dúvida e medo não sumiram; nem a raiva e a amargura daqueles anos. Essa raiva pode não ser expressa publicamente, diante de colegas de trabalho brancos ou amigos brancos. Mas encontra seu caminho nas cadeiras do barbeiro ou na mesa da cozinha. Em certas ocasiões, esse ressentimento é explorado por políticos, para ganhar votos com discursos com tons raciais ou para encobrir os próprios defeitos dos candidatos.

Ocasionalmente, esse ressentimento encontra caminho na igreja, no púlpito e na platéia. O fato de que tanta gente fica surpresa de ouvir a raiva expressa em alguns dos sermões do reverendo Wright nos relembra do antigo truísmo, segundo o qual a hora mais segregada da vida americana ocorre aos domingos de manhã. Esse ressentimento nem sempre é produtivo; na verdade, muitas vezes nos distrai da resolução de problemas reais; evita que encaremos nossa cumplicidade com essa situação e que a comunidade afroamericana faça as alianças necessárias para provocar mudanças reais. Mas a raiva é verdadeira; é poderosa; e simplesmente desejar que ela suma ou condená-la sem entender as raízes apenas serve para aumentar o desentendimento que existe entre as raças.

Na verdade, uma raiva similar existe em segmentos da comunidade branca. A maior parte dos trabalhadores e da classe média branca não acredita que foi privilegiada pela cor da pele. A experiência deles é a dos imigrantes - não receberam nada de graça, construíram tudo do nada. Trabalharam duro por toda a vida, muitas vezes apenas para assistir seus empregos sendo mandados para o exterior, suas aposentadorias sumirem depois de uma vida de trabalho. Eles estão ansiosos quanto ao futuro e sentem que o sonho não está se tornando realidade; numa era de salários estagnados e de competição global, as oportunidades são como um jogo de soma zero, nas quais o sonho de um é realizado às custas do outro. Assim, quando precisam mandar seus filhos de ônibus para uma escola [racialmente integrada] do outro lado da cidade; quando ouvem que um afroamericano tem vantagem para conseguir um emprego ou uma vaga na faculdade por causa de uma injustiça que eles nunca cometeram; quando alguém diz a eles que o medo do crime em vizinhanças urbanas é expressão de discriminação, o ressentimento aparece; e cresce com o tempo.

Assim como na comunidade negra, esse ressentimento nem sempre se expressa de forma educada. Mas ajudou a construir o cenário político por pelo menos uma geração. O desprezo pelos programas sociais e pelas cotas raciais ajudaram a forjar a coalizão de [Ronald] Reagan. Os políticos rotineiramente exploraram o medo do crime para seus próprios objetivos. Apresentadores de programas e comentaristas conservadores fizeram carreiras desmascarando falsas acusações de racismo, ao mesmo tempo em que desprezavam discussões legítimas sobre injustiça e desigualdade racial como mera expressão do politicamente incorreto ou de racismo reverso.

Assim como a raiva dos negros se mostrou contraproducente, o ressentimento dos brancos nos desviou de identificar os verdadeiros culpados pelo aperto da classe média - uma cultura corporativa contaminada pelo uso de informações privilegiadas, pela contabilidade questionável e pela ambição desmedida; Washington dominada por lobistas e grupos de defesa de interesses especiais; uma política econômica que favorece poucos em detrimento da maioria. Ainda assim, desejar que o ressentimento dos brancos simplesmente desapareça, rotulá-lo de equivocado ou mesmo racista, sem reconhecer que há uma preocupação legítima - isso também aumenta o fosso racial e bloqueia o caminho do entendimento.

É onde estamos hoje. É o impasse racial em que nos encontramos. Ao contrário do que dizem meus críticos, brancos e negros, nunca fui ingênuo de acreditar que podemos acabar com nossas divisões em uma eleição, com uma única candidatura - particularmente uma candidatura tão imperfeita quanto a minha.

Mas reafirmei minha convicção - uma convicção que tem raízes em minha fé em Deus e no povo americano - de que, trabalhando juntos, podemos ir além de nossas feridas raciais; e de que não temos outra escolha a não ser continuar na busca por uma União mais perfeita.

Para a comunidade afroamericana, esse caminho significa abraçar o peso de nosso passado sem se tornar vítima dele. Significa continuar a insistir em Justiça em todos os aspectos da vida americana. Mas também significa amarrar nossos objetivos particulares - por melhor saúde, melhores escolas e melhores empregos - à aspiração de todos os americanos - da mulher que quer romper o teto da ascensão social, do homem branco que foi demitido, do imigrante que tenta alimentar sua família. E também significa assumir responsabilidade por nossas vidas - exigindo mais dos pais, passando mais tempo com nossas crianças, lendo para elas, ensinando-as que assim como elas podem vir a enfrentar desafios e discriminação em suas próprias vidas, nunca devem sucumbir ao desespero e ao cinismo; e ensinar que podem escrever seu próprio destino.

Ironicamente, essa noção essencialmente americana - e, sim, conservadora - de auto-ajuda, freqüentemente se expressa nos sermões do reverendo Wright. Mas o que o meu ex-pastor não entendeu é que embarcar em um programa de auto-ajuda requer a crença de que uma sociedade pode mudar.

O erro profundo nos sermões do reverendo Wright não é que ele falou sobre racismo em nossa sociedade. É que ele falou de nossa sociedade como se fosse estática; como se não tivesse havido progresso; como se esse país - um país que tornou possível a um integrante de sua congregação concorrer ao cargo mais importante na nação e a construir uma coalizão de brancos e negros, latinos e asiáticos, ricos e pobres, jovens e idosos - estivesse irrevogavelmente ligado a seu passado trágico. Mas o que sabemos - e o que vimos - é que os Estados Unidos podem mudar. Essa é a genialidade dessa nação. O que já avançamos nos dá esperança - a audácia da esperança - de que podemos e devemos obter novas conquistas amanhã.

Na comunidade branca, o caminho para uma União mais perfeita requer reconhecer que o que prejudica a comunidade afroamericana não existe apenas no pensamento dos negros; que o legado da discriminação - e os atuais incidentes de discriminação, ainda que menos descarados que no passado - são reais e precisam ser enfrentados. Não apenas com palavras, mas com ações - investindo em nossas escolas e comunidades; dando a novas gerações acesso às oportunidades que faltaram para gerações anteriores. Isso requer que todos os americanos não acreditem que a realização de seus sonhos resulta da negação do sonho alheio; que investir em saúde, programas sociais e educação de crianças negras, morenas e brancas fará com que todos os Estados Unidos prosperem.

No fim, o que é preciso é nada mais, nada menos, do que todas as grandes religiões do mundo exigem - que façamos pelos outros o que gostaríamos que fizessem por nós. Vamos cuidar de nossos irmãos, a Escritura nos diz. Vamos cuidar de nossas irmãs. Vamos descobrir o que há de comum entre nós e fazer com que nossa política reflita isso.

Temos uma escolha nesse país. Podemos aceitar a política da qual brotam divisões, conflitos e cinismo. Podemos encarar a questão racial apenas como espetáculo - como no julgamento de OJ Simpson; ou depois de tragédias, como o Katrina; ou como produto para alimentar os telejornais noturnos. Podemos repetir os sermões do reverendo Wright em todos os canais, todos os dias, e falar deles até as eleições. Podemos tornar a única questão da campanha se o povo americano acredita que eu simpatizo ou não com as palavras mais ofensivas que ele disse. Podemos bater na gafe de algum apoiador da Hillary [Clinton] como prova de que ela está explorando a questão racial ou podemos especular se os homens brancos vão todos votar em John McCain nas eleições gerais, independentemente das propostas dele.

Podemos fazer isso.

Mas, se fizermos, digo a vocês que na próxima eleição o tema será alguma outra distração. E outra. E mais outra. E nada vai mudar.

Essa é a opção. Ou, nessa hora, nessa eleição, podemos nos unir e dizer "não dessa vez." Dessa vez queremos falar sobre as escolas que estão roubando o futuro de crianças negras e crianças brancas e crianças latinas e crianças asiáticas e crianças nativas. Dessa vez queremos rejeitar o cinismo que diz que nossos filhos não podem aprender; que crianças que não se parecem conosco não são problema nosso. As crianças dos Estados Unidos não são aquelas crianças, elas são nossas - e não vamos deixá-las ficar para trás na economia do século 21. Dessa vez não.

Dessa vez queremos falar sobre as filas no pronto socorro cheias de brancos e negros e hispânicos que não têm seguro de saúde; que não tem poder para enfrentar os lobistas em Washington, mas que podem enfrentá-los, sim, se fizermos isso juntos.

Dessa vez podemos falar das fábricas fechadas que no passado deram uma vida decente a homens e mulheres de todas as raças, e das casas à venda que um dia pertenceram a americanos de todas as religiões, de todas as regiões, de todas as profissões. Dessa vez queremos falar sobre o fato de que o problema verdadeiro não é que alguém que não se parece comigo conseguiu um emprego; é que as corporações para as quais você trabalha despacham os empregos para o exterior pensando só em lucro.

Dessa vez queremos falar sobre os homens e as mulheres de todas as cores e credos que servem juntos, que lutam juntos, que sangram juntos sob a mesma bandeira orgulhosa. Queremos falar sobre como trazê-los de volta para casa de uma guerra que nunca deveria ter sido autorizada, que nunca deveria ter sido lutada; queremos falar sobre como demonstrar patriotismo cuidando deles e de suas famílias, dando a eles os benefícios que conquistaram.

Eu não estaria concorrendo a presidente se eu não acreditasse em meu coração que é isso o que quer a vasta maioria dos americanos. Essa União pode nunca se tornar perfeita, mas geração após geração demonstrou que ela pode ser aperfeiçoada. E hoje, quando quer que eu sinta duvida ou cinismo em relação a essa possibilidade, o que me dá esperança é a próxima geração - os jovens cujas atitudes e crenças e aceitação de mudança já fizeram história nessa eleição.

Há um caso em particular que eu gostaria de contar a vocês hoje - uma história que eu contei quando tive a honra de falar em homenagem ao aniversário do Dr. [Martin Luther] King na igreja dele, a Ebenezer Batista, em Atlanta.

Há uma jovem branca de 23 anos de idade chamada Ashley Baia que ajudou a organizar nossa campanha em Florence, na Carolina do Sul. Ela trabalhou especialmente em uma comunidade afroamericana desde o início da campanha e, um dia, numa discussão, todos os voluntários contaram suas histórias e explicaram porque estavam lá.

Ashley disse que quando tinha nove anos de idade a mãe soube que tinha câncer. Por causa disso perdeu alguns dias de trabalho, foi demitida e ficou sem o seguro de saúde. A família precisou declarar falência e foi então que Ashley decidiu que tinha de fazer algo pela mãe.

Ela sabia que a comida era um dos maiores gastos da família e convenceu a mãe de que gostava muito e só queria comer sanduíches de mostarda e picles. Era a forma mais barata de se alimentar.

Fez isso durante um ano, até que a mãe melhorou; Ashley contou aos que participavam da conversa que a razão pela qual ela havia se juntado à campanha era para ajudar milhões de outras crianças do país que queriam e precisavam auxiliar seus parentes.

Ashley poderia ter feito outra escolha. Quem sabe alguém disse a ela que a fonte dos problemas da mãe eram os negros que dependiam de ajuda do governo e eram muito preguçosos para trabalhar, ou hispânicos que estavam no país ilegalmente. Mas não foi essa a escolha dela. Ashley buscou aliados em sua luta contra a injustiça.

Assim que acabou de contar sua história, Ashley perguntou a outros presentes o motivo que os havia levado a entrar na campanha. Cada um tinha suas histórias e razões. Alguns indicaram questões específicas. E finalmente chegaram a este senhor negro que tinha permanecido calado o tempo todo. Ashley perguntou porque ele estava lá. E ele não mencionou nada específico. Não falou em saúde ou economia. Não falou em educação ou na guerra. Não falou que estava lá por causa de Barack Obama. Ele simplesmente disse: "Estou aqui por causa da Ashley." "Estou aqui por causa da Ashley." Em si mesmo, esse momento de reconhecimento entre uma jovem branca e um velho negro não é suficiente. Não é suficiente dar saúde aos doentes, empregos aos desempregados ou educação a nossas crianças.

Mas é um começo. É assim que nossa União se torna mais forte. E assim como muitas gerações se deram conta, nos 221 anos que nos separam daquele grupo de patriotas que assinaram um documento na Filadélfia, é assim que a perfeição começa."

BARACK OBAMA, por Luís Carlos Azenha

20.3.08

Mídia Manipuladora


A notícia é manipulada pelos veículos de comunicação. Essas manipulações são selecionadas. Já que esses vêem a notícia como uma mercadoria. E fazem da mídia uma empresa de Marketing, onde a indústria da informação negocia sua mercadoria. Essa indústria prioriza a alienação dos fatos, essa apresenta-se superficialmente em todo o mundo. Não tem causa, atividade e nem mobiliza a massa. A imprensa mundial maquia os fatos, por interesse de vendas. Dando aos “consumidores” furos de reportagem que geram mais dinheiro. O jornalista por sua vez, acaba rendendo-se a deturpação dos fatos para garantir que a notícia venda. Criando fatos, manipulando informações e estimulando polêmicas, fazendo disso uma grande produção. Essas pessoas não se dão conta que muitas vezes influenciam diretamente a visão das pessoas. Qualquer sujeito consegue notar que a imprensa constrói sua própria realidade. Os meios filtram e manipulam notícias de acordo com seus interesses, e sempre ao final disso fazem com que a população acredite naquilo que lê. A mídia adotou uma técnica classificada como a Pirâmide Invertida. Essa produz notícias que enaltecem a diferença, criando assim uma realidade intricada. Os noticiários abordam acontecimentos trágicos, violência, crises, erros e escândalos para a venda. A mídia impede a liberdade de expressão, deixando então a verdade de lado. Esse tipo de situação impede a atenção da sociedade para reais problemas.


19.3.08

O LIVRE PENSAR

Um criminoso, quando mata, estupra ou comete qualquer atrocidade, se se conseguisse extrair dele a verdadeira razão pela qual cometeu o crime ele diria que fez o que fez simplesmente porque podia fazer. É disso que se trata essa questão envolvendo o Paulo Henrique Amorim e o IG.

À esta altura, acho difícil alguém acreditar na justificativa que o IG (não) deu (diretamente) para defenestrar o jornalista. Trata-se de uma atitude fria, protocolar, profundamente desrespeitosa com a parte do público do portal que gostava do que PH fazia.

Quem tirou o Conversa Afiada do ar no IG, fez isso porque tinha poder de fazer. Não se importou com o precedente que é para uma nação os mais poderosos começarem a calar os mais fracos por esses métodos. Isso acontecia no regime militar com aqueles que incomodavam a ditadura - sem grande ousadia, porque os que incomodavam mais eram calados definitivamente.

Não sei se foi o Daniel Dantas, o Citibank, a Veja ou o José Serra que tirou PH do ar, mas sei a quem ele incomodava.

Diante disso, entende-se o ânimo exaltado das pessoas. O que parece ter entrado em jogo é a liberdade de expressão, que tentam cercear nos jornalistas que não rezem pela cartilha dos grandes meios de comunicação.

É preciso, no entanto, usar a cabeça e, passado o choque da constatação de que as coisas estão indo muito mal neste país do ponto de vista político, pensarmos no que podemos fazer de verdadeiramente efetivo. Aliás, é o que eu venho pregando aqui, fazer mais e falar menos.

Em primeiríssimo lugar, fiquei surpreso com uma informação contida no site do ombudsman do IG, Mario Vitor Santos, de que tinha recebido, primeiro, 54 mensagens protestando contra a expulsão de Paulo Henrique Amorim do IG, e, depois, mais 54 mensagens, até a hora em que escrevo.

Basta olhar para a quantidade de comentários postada nos principais blogs e sites de esquerda para se notar que está faltando uma mobilização maior em protesto contra essa verdadeira ameaça à liberdade de opinião e de expressão. Tenho certeza de que podemos fazer muito mais do que isso...

Apesar de eu não gostar muito de manifestações virtuais, pois prefiro mostrar cara, voz, idéias e atitudes, acho que, antes de mais nada, é preciso um protesto maciço via e-mail. Só que não adianta o destempero, os maus modos, os insultos e as ofensas. Argumentem com serenidade e solenidade, é o meu conselho.

Quem quiser segui-lo, o endereço do ombudsman do IG é : ombudsman@ig.com.br

Novos passos precisarão ser muito bem refletidos.

Um outro assunto a tratar é o prêmio Ibest. Sei que gente respeitável da blogosfera, como meu amigo Luiz Carlos Azenha, retirou sua candidatura, apesar de bem colocado.

Antes de fazerem isso, vi comentário de que todos os blogueiros independentes estariam intimados a retirarem suas candidaturas ao prêmio sob pena de "cumplicidade". Vi também criticarem àqueles que não se solidarizaram com o PH ou que não o fizeram "suficientemente". Sendo explícito, como gosto de ser, referiram-se a Luis Nassif.

Eu, particularmente, digamos que "brochei" com o prêmio Ibest, por isso pedi ao meu genro, que é quem entende dessas coisas, para retirar o selo do concurso deste blog assim que puder. Não posso retirar a candidatura do Cidadania ao prêmio porque este blog não se candidatou, foi inscrito.

É uma pena, porque o Ibest teve o mérito de provar uma teoria que eu já tinha veiculado aqui, a de que a blogosfera de esquerda - ou ao menos a que não é esquerdofóbica - é muito maior do que a blogosfera da direita. Vejam que só dá blogs de esquerda no Ibest. E não pensem que o IG tem - ou tinha - tantos blogs não-alinhados à grande mídia à toa. É que esses são os blogs mais populares e com maior audiência.

Só para lembrar: eu publiquei aqui, faz algum tempo, uma análise da última pesquisa Datafolha sobre a popularidade do governo Lula que mostrava que aqueles que o apóiam e que têm curso superior - e que, portanto, supostamente seriam os que lêem mais, informam-se mais - são exatamente o dobro dos que o rejeitam.

A teoria de que o IG estava manipulando a votação no Ibest em favor dos blogs de esquerda porque era "petista", porém, desmoronou como um castelo de areia tolhido pelas ondas do mar. O expurgo do Paulo Henrique Amorim do IG prova isso. Extinguir o único blog assumidamente pró governo que há num grande portal de internet, só sendo muito cínico para dizer que não é a maior prova de que nunca houve manipulação pró esquerda coisa nenhuma.

Agora, pela teoria Reinaldo Azevediana, como o IG, supostamente, tornou-se simpático à direita por ter defenestrado o PH, certamente que os blogs de esquerda, por tal teoria, deveriam minguar na votação.

Quero dizer, também, que lamento muito o que aconteceu com o IG, porque é presidido por Caio Túlio Costa, a quem sempre respeitei por conta do belíssimo trabalho que fez como o primeiro ombudsman da Folha e do país, enfim, por suas posições sempre corretas. Custo a acreditar que ele faz parte de um ato tão vil, não contra PH, contra Lula ou contra a esquerda, mas contra a liberdade de expressão no Brasil.

No entanto, cumpre-me dizer que acho açodamento, patrulhamento e efeito manada alguém querer impor este ou aquele comportamento a qualquer um. Se o Nassif não se pronunciou "suficientemente" contra o que fizeram com o PH, não sei mensurar. Mas acho que é preciso haver mais respeito pela individualidade de cada um.

Eu, por exemplo, não poderia deixar de tirar deste blog o selo do Ibest. É a única forma que encontro para protestar contra a atitude descabida e desrespeitosa do IG contra alguém que me deu apoio em todas as vezes que precisei dele.

Contudo, não acho justo começar essa boataria contra o Nassif. Para mim, ele não precisa provar mais nada. Seu trabalho, sua vida profissional falam por ele. É bom pensarmos nisso, ou acabaremos nos igualando àqueles que criticamos.

Eduardo Guimarães

16.3.08

LIBERDADE PARA TODOS


Persisto no assunto liberdade de imprensa. Esse conceito precisa ser muito discutido, pois crimes vêm sendo cometidos em seu nome desde que a imprensa surgiu e, de novidade, converteu-se num dos pilares das sociedades modernas e democráticas.

Não se pode conceber uma sociedade sem uma imprensa atuante, influente e que tenha meios de contestar os poderes constituídos, eventualmente se convertendo em porta-voz dos setores que não teriam meios de levantar suas vozes contra os setores mais poderosos e influentes. Ao longo da história, porém, a imprensa foi se convertendo, em grande parte, em porta-voz de grupos sociais bem específicos, sempre negando esse papel e alardeando suas atuações em momentos em que teve que se unir ao mesmo interesse comum que antes violara.

Nesse aspecto, vale revermos manifestação de um comentarista deste blog que vem se manifestando com freqüência, mas que, à diferença de vários dos que vêm aqui protestar contra a linha editorial do Cidadania, divergiu de maneira civilizada, ainda que o conteúdo dessas manifestações venha eivado de meias-verdades. Leiam abaixo, portanto, comentário do leitor Antonio Thadaz, de Curitiba:

"(...) você diz aos jovens que no seu tempo (nosso) as esquerdas tinham que se manter caladas. E caladas elas roubavam bancos, seqüestravam embaixadores, explodiam bombas, mutilando inocentes, e faziam guerrilha no Araguaia. Hoje, esse pessoal recebe gordas pensões do governo, inclusive o Lula.

Como sei tudo isso ? Imprensa. Nos tempos duros, o JB, censurado, publicava receita de bolo no lugar da notícia. Otávio Frias tem uma longa história de resistência ao regime de exceção, Boris Casoy que o diga. O Mesquita abrigou, em sua redação, jornalistas perseguidos.

Dos grandes jornais, O Globo foi o único que teceu louvaminhas aos militares. Ou seja, a maioria da tal família midiática tem história na luta pela liberdade, liberdade essa que oportunizou [sic] ao Lula fundar e difundir seu partido.

Afirmar que a mídia de hoje paralisa o congresso [sic], atrasa projetos e provoca catarses coletivas é conferir à imprensa um poder que ela não tem. Orson Welles morreu e não deixou herdeiros."

Pelo que o leitor escreveu, ele deve ser da minha geração. Estranho, no entanto, que não saiba que quem viabilizou a ditadura militar de mais de 20 anos no Brasil foram exatamente os Mesquita, Frias e Marinho, com seus jornais, tevês e revistas acossando o governo legalmente constituído de Jango Goulart.

Parece-me raro, ainda, que o mesmo leitor não recorde do Riocentro, onde, nos estertores da ditadura militar, a ditadura colocou uma bomba, na tentativa de forjar que tinha sido colocada por aqueles que caçava, prendia, torturava e matava.

Mas o leitor em questão levanta, ou melhor, torna mais evidente o tema liberdade de imprensa. Essa liberdade de um meio de comunicação - ou de vários - difundir informações e opiniões tem que ser acompanhada da pluralidade opinativa mais ampla, geral e irrestrita. Liberdade para informar sempre deverá pressupor liberdade de contestar o que foi informado. Quando a imprensa informa só o que quer, seja em termos de notícia ou de opinião, e não admite que se conteste o que divulgou, não há liberdade de imprensa nenhuma.

Liberdade de imprensa sempre será um bom conceito, desde que seja para todos os que fazem jornalismo. A liberdade de imprensa que os grandes jornais, tevês e assemelhados pedem, no entanto, é para poucos (só para eles mesmos). Ao mesmo tempo em que pedem liberdade de expressão para si, combatem a de quem não for ungido por eles.

Têm sido freqüentes, na grande mídia, ataques à maior inovação ocorrida no jornalismo desde seu surgimento, o fenômeno dos blogs. Hoje mesmo (domingo), na Folha de São Paulo, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony classifica de "chatos" os que fazem uso da tecnologia para participarem dos grandes debates nacionais. Lamenta que a internet tenha viabilizado para qualquer um a liberdade de difundir opiniões e informações em larga escala. Quer que a liberdade de imprensa seja só para os ungidos pelo grande jornalismo.

Diante de tais premissas, pode-se formular algumas questões:

Quando essa "liberdade de imprensa" é usada para insuflar militares para que dêem um golpe de Estado, a fim de depor um governo que desagradava aos multimilionários donos de grandes cadeias de rádio, tevê, jornais e revistas, que liberdade é essa?

Como pode ser chamado de "liberdade" fazer uma campanha que pede que a vontade eleitoral da maioria de uma nação seja violentada em benefício da vontade dos derrotados eleitoralmente?

Quando os meios de comunicação divulgam que há uma epidemia de febre amarela no país e, com isso, alarmam a sociedade, de forma que pessoas que não tinham risco de contrair a doença tomam, aleatoriamente, um medicamento controlado que pode lhes causar danos, que liberdade é essa?

Aliás, tais práticas constituem liberdade de informar ou de sabotar?

Liberdade só é liberdade se todos puderem desfrutar dela. Quando a liberdade que se pede é igual a essa que os magnatas da comunicação pedem, que é só para eles, suas empresas e seus prepostos ditos jornalistas, mas que viola, cotidianamente, todos os princípios jornalísticos que remetem à pluralidade de idéias e opiniões, o que se vê é justamente o contrário de liberdade.

Há pouco, a grande mídia brasileira foi à OEA denunciar que está sofrendo processos na Justiça e que esses processos pretenderiam cercear sua liberdade de imprensa, ou seja, de fazerem acusações gravíssimas a quem quiserem sem prova nenhuma. Mas quando essa imprensa é acusada de práticas tão graves quanto aquelas que denuncia, vai à Justiça até contra jornalistas saídos de suas fileiras por divergirem de sua linha de atuação. Vide o caso Luis Nassif versus Veja.

Que tal se Nassif (ex-Folha de São Paulo) ou Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha (ex-Globo) fossem à OEA denunciar que, por não aceitarem ver seus trabalhos jornalísticos deturpados ou bloqueados por seus empregadores, foram levados a abrir mão de seus empregos, tanto por iniciativa própria quanto daqueles empregadores? E por que a Veja pode processar Nassif, que é jornalista, mas quando alguém a processa diz que estão lhe ameaçando a "liberdade de imprensa"?

O pior de tudo, é que quando quem critica a grande imprensa tenta debater com ela suas críticas, ela se nega a debater, chegando a insultar os que a questionam, chamando-os de "descerebrados", "hidrófobos", "chatos" etc. Processa quem a critica, mas não admite ser processada por fazer o mesmo ou, pior, por disseminar campanhas contra isso ou a favor daquilo ou de que isso existe e aquilo não existe, o que às vezes redunda em desastres como as mortes e adoecimentos causados por vacinação indevida contra a febre amarela.

Liberdade de expressão ou de recorrer à Justiça tem de ser para todos. E só será se aqueles que os grandes grupos econômicos que exploram a comunicação de massas tentam cercear persistirem no exercício do direito de manifestação e, ainda mais, no de buscarem a Justiça para questionar esses grupos.

No que diz respeito ao direto de manifestação do pensamento, acho que o Brasil e o mundo vão muito bem, obrigado. O fenômeno dos blogs e das correntes de e-mail - e me atenho a eles porque são os meios mais acessíveis para qualquer pessoa se manifestar em larga escala - vai se intensificando em progressão geométrica. No questionamento judicial de práticas jornalísticas claramente danosas, no entanto, o país ainda está engatinhando. À diferença do que acontece no mundo desenvolvido, denunciar meios de comunicação à Justiça ainda é um tabu por aqui.

Denunciar, processar ou criticar não é mais prerrogativa exclusiva da mídia. Liberdade, tampouco. E pretendo provar isso. Essa é a parte que nos cabe, aos cidadãos comuns, neste latifúndio, neste mundo injusto, desigual, hipócrita, do qual meia dúzia de magnatas das comunicações querem aprofundar o "modelo". Por conta disso, como cidadão, como detentor dos mesmos direitos que têm os Marinho, os Frias ou os Mesquita, não hesitarei em tomar atitudes, amparado por dezenas e dezenas de brasileiros de todas as partes do país que se uniram à ONG que propus que fosse fundada, o Movimento dos Sem-Mídia.

Eduardo Guimarães

15.3.08

MAIS UM TOMBO DA DIREITA

Vou comentar direito quando as eleições tiverem seus resultados definidos. Este mapa mostra o que as pesquisas indicam neste sábado, na véspera. Para entender melhor as eleições municipais na França, basta olhar as bolinhas: as rosas, vermelhas e amarelas representram partidos de direita e as demais (azul, índigo e amarelo), de esquerda. Veja o significado das siglas:




UMP, União por um Movimento Popular, liberal de centro-direita, Nicolas Sarcozy

Modem, União pela Democracia Francesa, democrata-cristão de centro-direita, François Bayrou

DVD, abreviação de Divers Droite, que é um termo utilizado na França para designar candidatos conservadores que não são membros de nenhum partido.

PS, Partido Socialista, liberal de esquerda.

PC, Partido comunista, antiliberal de esquerda, Marie-Georges Buffet

DVG, abreviação de Divers Gauche, que é um termo utilizado na França para designar candidatos de esquerda que não são membros de nenhum partido.

12.3.08

O PREÇO DE UM HOMEM

Ao contrário do Reinaldo Azevedo, que sempre viveu bem, trabalhou bem e ganhou bem, eu tenho de lutar bastante para sobreviver. Na verdade, daqui há pouco vou para meu terceiro turnod e trabalho honesto. Meu pai está doente, de algo incurável, mas tratável; isto tem me preocupado muito e me forçado a trabalhar mais ainda; sustento, coma ajuda imprescindível de meus patrões, meus irmãos na mesma escola em que trabalho.Não sou rico, nunca bebi wisky 60 anos... Mas eu não tenho preço. E está aí uma diferença importante.
De toda forma, mesmo cansado, mesmo sabendo que daqui há pouco terei de ir trabalhar, obviamente sem janta, eu gostaria de falar sobre outro homem que também não tem: o jornalista Luís Nassif. Que um homem, virtualmente sozinho, armado apenas o próprio senso de decência e dignidade, ouse enfrentar a quinta maior revista o mundo em circulação, imbuído do mais sério e puro espírito jornalístico e do apreço a verdade, é coisa que se o assemelha a titãs. Eu não digo do senso de auto-preservação, mas da cidadania, da decência e da dignidade.
Sobre o embate entre o jornalista e a grande empresa midiática sul-africana/brasileira, a mídia gorda não fala nada. Será por que ela teme ou por que é cúmplice? Se teme, maior ainda é a coragem do Nassif, e mais grandiosos os seus feitos. Se é cúmplice, o que nos protegerá? Apenas nosso próprio discernimento. E uma convicção quase sagrada de que o mínimo que um homem que enfrenta um monstro deve merecer, é que não tornemos vã a sua luta, sendo conveniente com a mentira e a manipulação.
Neste sentido, se você assina a Veja, leia o Dossiê do Nassif e considere cancelar sua assinatura; se não assina, convença alguém a fazer isto. O Nassif sacrificou sua paz ao enfrentrar esta revista; eu sacrifiquei bem menos: meu jantar de hoje. Ao fazer isso, você não sacrificará nada, ao contrário, ganhará a possibilidade de ler algo mais decente.

9.3.08

Temas Mnésicos

Indizível. Assim se caracteriza a capacidade brasileira de esquecer. De apagar por completo ou, como exigiria a modernidade, de deletar informações. Parece-me que a extrema semelhança de genes da espécie atingiu também a personalidade das pessoas, conferindo-as ao menos uma característica em comum: uma região específica do cérebro, muito desenvolvida, e completamente destinada ao ato de olvidar.

Sejam falcatruas que acabariam de vez com qualquer carreira política, mas que, inacreditavelmente, passam por despercebidas, das quais temos como formidável exemplo o caso Collor; sejam barbaridades da iniciativa privada que prejudicaram, diretamente, centenas de pessoas e que algum tempo depois foram silenciadas pela mídia omissa, como o que, na época, chamaram de "o maior acidente aéreo brasileiro".

Hoje, da minha pacata cidade interiorana, me pergunto onde foram parar tais lembranças. Teriam elas, literalmente, entrado para a História? Ou teriam sido simplesmente arquivadas por quem interessasse tal omissão? É fato que não somente do passado se faz o presente. Mas também é evidente que as experiências passadas deveriam intervir - no sentido de melhorar - as ações e posicionamentos futuros das pessoas.

Enfim, é ano de eleições. Farei o meu título de eleitor em breve e provavelmente votarei. A única certeza que trago comigo desde já é que, antes de qualquer deliberação - que deverá ser estudada de modo extenuante - lembrarei bastante do passado. A relação custo-benefício, hoje obrigatória, será analisada com cuidado, e os atos anteriores dos candidatos terão peso decisivo. Posso parecer sonhador demais, dando demasiada atenção a algo que - muitos dirão - não a merece. Mas trata-se de evitar o remorso, à medida que não deixo o passado morrer. E assim espero que façam os jornalistas.

8.3.08

NOTA OFICIAL DO GOVERNO BRASILEIRO

"O Governo brasileiro tomou conhecimento com grande pesar e consternação do assassinato de Isaías Carrasco, ex-vereador de Mondragón, militante do Partido Socialista de Euskadi e do Sindicato Unión General de Trabajadores (UGT), no dia de ontem, 7 de março.

Em nome do Governo brasileiro, expresso a Vossa Excelência e, por seu intermédio, ao Governo e ao povo da Espanha, meu sentimento de solidariedade aos familiares da vítima. O Governo brasileiro condena qualquer ato de violência de inspiração política.

Cordiais saudações,

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República Federativa do Brasil"

...
Estou com o presidente; não serei eu que beatificarei os espanhóis, concordo com a autonomia de Euskadi, da Catalunye e da Galícia, mas veementemente discordo da violência como forma de se atingir determinados objetivos. Também lamento a morte do infeliz Carrasco, solidarizo-me com sua família e condeno os assassinos que levaram a cabo este homicídio. Que isto, todavia, não sirva de desculpa para aterrorizar os bascos.

6 LIÇÕES PORTUGUESAS SOBRE A ESPANHA

Diz um velho ditado português que "De Espanha nem bom vento, nem bom casamento". A justificação destes ditado, encontramo-la na história das relações entre Portugal e a Espanha, marcada por seculares atos de pilhagem, traições, guerras e ameaças. A tradição já não é o que foi, mas parece estar ainda bem viva se tivermos em conta alguns casos recentes. A questão é de natureza cultural, e portanto muito difícil de ser alterada.


1. COMO OS ESPANHÓIS TRATAM SEUS VIZINHOS A relação da Espanha com os seus vizinhos portugueses, ditos amigos ou irmãos na retórica política, é tudo menos amigável a julgar pela forma como percepcionam e tratam os imigrantes portugueses, incluíndo os seus filhos. Inquéritos recentes à Opinião Pública Espanhola são claros: Entre os povos que os espanhóis mais detestam, surgem à cabeça da lista o português e o marroquino.
Atravessar a Espanha, no passado, era um pesadelo, devido ao saque e roubos que os portugueses eram vítimas neste país. As coisas estão agora muito melhores, mas certas práticas ainda tardam em acabar. Em Fevereiro de 2006, seis policiais espanhóis da "Guarda Civil", da região de Cidade Rodrigo (Ciudad Rodrigo) acabaram por ser presos. Dedicavam-se a extorquir dinheiro a automobilistas estrangeiros, a maioria dos quais portugueses.
Outro dos tratamentos dados a portugueses que chocou a opinião pública, ocorreu no dia 22 de Junho de 2002, na Fronteira espanhola de Rosal de La Fronteira. O caso teve o condão de deixar profundamente apreensivos os restantes países europeus. Neste dia milhares de portugueses, entre os quais se contavam deputados à Assembleia da Republica, foram impedidos com extrema violência e sem qualquer explicação de se dirigirem a Sevilha para participarem numa manifestação européia contra a xenofobia e a Globalização. A atuação do Estado Espanhol desrespeitou todos os princípios em que assenta a União Europeia. A imprensa espanhola, sempre pronta a divulgar todas as más noticias sobre o país vizinho, remeteu-se ao mais completo silêncio sobre os acidentes nas fronteiras, em particular em Rosal de la Frontera. Este ato apenas reforçava uma convicção generalizada entre os portugueses, o de que a tradição xenófoba de Espanha não está morta, mas continuava a constituir uma séria ameaça.

2. A ESPANHA E O CRIME ORGANIZADO. Desde os anos 80 que Portugal tem vindo a ser invadido por bandos de criminosos sediados em Espanha. A abertura e ligação de todas as fronteiras por auto-estradas, assim facilitou estes assaltos, nomeadamente no norte (Minho e Trás-os-Montes) e no sul (Algarve). Estas organizações criminosas estão ligadas ao tráfico de droga, prostituição, assaltos (bancos, ourivesarias, bombas de gasolina, estabelecimentos comerciais, museus, residências, etc). Desde 2002 que existem crescentes suspeitas que a ETA, procura instalar células em Portugal.

3. ESPANHA E TRÁFICO DE DROGAS. A Espanha é a principal porta de entrada da cocaina na Europa, e o principal centro de branqueamento de dinheiro da droga. Todos os anos são presos em Portugal dezenas de traficantes espanhóis, 90% da droga que é aqui apreendida destina-se a Espanha.

4.ESPANHA E TRÁFICO DE SERES HUMANOS. A tradição escravocrata é antiga e tarda em desaparecer na Península Ibérica. Por incrível que possa parecer, no início do século XXI, tem-se multiplicado os raptos de portugueses que são depois levados para Espanha como escravos. Só em Abril de 2005, a Polícia portuguesa prendeu 23 negreiros de etnia cigana ao serviço de empresas espanholas. A partir de então, a comunicação social tem noticiado diversos casos de escravatura de deficientes por empresas espanholas. A barbárie em plena Europa.
Multiplicam-se os casos de empresas nos dois lados da fronteira que se dedicam ao trafico de pessoas, com a mais completa cumplicidade das autoridades espanholas. A 29 de Maio de 2006, por exemplo, a comunicação social denuncia mais uma empresa "portuguesa" que desenvolvia a sua actividade em Espanha (Valença) na construção de grandes empreendimentos turísticos. A sua "especialidade" consistia em contratar em Portugal imigrantes ilegais (ucranianos, moldavos e brasileiros) e depois levá-los para Espanha onde eram escravizados.
Em Abril de 2007 foram libertados em Navarra mais 97 escravos, a maioria das quais era de origem portuguesa. Os contratadores eram de etnia cigana, os escravos eram individuos débeis mentais, toxicodependentes e com graves problemas de integração social.

5.AS MULTINACIONAIS DA ESPANHA. Longas guerras no passado deram origem a relações baseadas na lógica do Saque e pelo menos o que se pode deduzir de exemplos como os seguintes. Aumentaram, em 2006, as denúncias de consumidores portugueses referentes a empresas espanholas. O esquema é quase sempre o mesmo. Em Portugal é publicitada a venda de produtos. Os consumidores que os compram pagam antecipadamente, mas quando depois os vão levantar descobrem que a empresa tem a sua sede algures em Espanha e lá ninguém responde pelos contratos feitos em Portugal. Uma vigarice.
As empresas espanholas que se instalam em Portugal, operam quase sempre numa lógica de saque ou de "secagem industrial". No primeiro caso, limitam-se a especular envolvendo-se em negócios obscuros, como o de Mario Conde no Banco Totta & Açores. No segundo, após adquirirem empresas industriais portuguesas, para depois se desfazerem das suas unidades produtivas e em transformá-las em meros entrepostos para a comercialização de produtos espanhóis. Largos setores da economia portuguesa foram desmantelados desta forma.
Uma das operações cada vez mais corrente, é a de pilhar o importante património cultural do país na posse de algumas empresas. Em 2005, por exemplo, após terem comprado dois jornais portugueses ( Primeiro de Janeiro e A Capital) e de os terem levado à falência, prepararam-se de seguida para transferirem para Espanha os seus preciosos arquivos, nomeadamente o do Primeiro de Janeiro. A imprensa do Porto denunciou o saque que estava a ser preparado (Agosto 2005).
No dia 15 de Maio de 2006, o jornal Expresso denunciou um caso que chocou o país. Numa vila do norte de Portugal, perto da Galiza, a multinacional espanhola ZARA, explora o trabalho de crianças. Uma delas tinha apenas 11 anos de idade e trabalhava para esta multinacional no fabrico de calçado. Em 2007, vem a público que uma empresa de construção civil (SOMAGUE), adquirida por espanhóis, em 2001/2002 esteve envolvida no financiamento ilegal de um partido português (PSD).

6.A ESPANHA E A ECOLOGIA.
Sucedem-se em Portugal os crimes ecológicos feitos por espanhóis numa lógica de total impunidade. Em Abril de 2007, por exemplo, um empresário espanhol abateu na centenas de zimbros, um espécie em vias de extinção na Reserva Ecológica do Alto Douro. Outro destruiu uma duna primária no concelho de Odemira (Alentejo) fragilizando deste modo as defesas da costa face ao avanço do mar.
Nas Ilhas Desertas, na Madeira, onde existe uma reserva de lobos marinhos, os pescadores espanhóis nas suas investidas assassinas contra estes animais e outras espécies protegidas, tem ameaçado de morte os guardas da referida reserva (Junho de 2005). Outro exemplo desta atitude espanhola de total impunidade para com os seus vizinhos, ocorreu entre 13 e 19 de Novembro de 2002, com o petroleiro "Prestige". Este petroleiro que transportava 70 mil toneladas de fuel, quando vinha da Estónia e se dirigia para Gibraltar, começou a derramar combustível ( 6 mil toneladas) junto à costa Galega, contaminando-a. A Espanha em vez de o rebocar para o porto mais próximo (La Corunha), começou por prender o respectivo comandante e depois afastou o navio destas suas costas, levando-o para sul na direcção das águas de Portugal, onde veio a afundar-se. Foi necessário a intervenção da marinha de guerra portuguesa para impedir que o mesmo fosse despejado nas suas praias.

Carlos Fontes

ORTEGA E GASSET, UM PENSADOR ESPANHOL

Antes de ler o texto aqui abaixo, dê uma espiada no que DISSE Ortega y Gasset, clicando no link anexado ao nome do artigo. Agora, abaixo, leia como o mesmo filósofo AGIA:

"Ortega é considerado o mais influente filósofo espanhol do século XX. Em teoria combateu a massificação das pessoas e a desumanização da arte, mas na prática assumiu uma conduta cúmplice com a ditadura franquista (Espanha) e a salazarista (Portugal), mostrando-se indiferente à barbárie nos dois países.

Ortega viveu em Lisboa entre 1942 e 1955, sempre rodeado de fervorosos defensores da ditadura salazarista. No seu luxuoso apartamento na Avenida da República, enquanto escreve sobre as grandes ameaças do mundo moderno, ignora o mundo que está à sua volta. Logo após a IIª. Guerra Mundial numa entrevista ao director jornal italiano - IL Giornale - manifesta apenas uma única preocupação em relação a Portugal era se os portugueses conseguissem matar o ditador Salazar. Se este fosse morto, segundo Ortega, instalar-se-ia o caos no país. O melhor que a população portuguesa devia fazer, na opinião deste notável filósofo, era conformarem-se à barbárie.

Ao longo dos 13 anos que viveu em Portugal, período apenas interrompido por algumas estadias em Espanha, mostrou sempre de forma clara e ostensiva que desprezava tudo o que aqui acontecia no país: a luta do povo português contra a ditadura e a miséria. O seu desprezo era extensivo aos milhares de republicanos espanhóis exilados em Portugal. O seu drama não o incomodou. A única coisa que o preocupava era a protecção que lhe prestava o ditador Salazar. Nas suas visitas a Espanha, depois de 1946, Ortega procurou de forma sistemática o reconhecimento de outro ditador: Francisco Franco.

A razão da sua indiferença em relação a Portugal tem uma explicação muito simples: Ortega faz parte de uma geração de políticos e intelectuais espanhóis que impregnados de ideias totalitárias e xenófobas não concebem a existência de Portugal. A sua existência histórica é assumida como uma "anomalia", algo que não se encaixa num discurso unitário da Península Ibérica dominada pela Espanha. A "teimosia" dos portugueses em serem independentes é sentida como uma ameaça à sua unidade de um território que a Espanha se reclama como herdeira. É por isso que Ortega tendo vivido em Portugal durante 13 anos ignora a identidade cultural e histórica do país.

Esta concepção xenófoba muito difundida entre monárquicos, republicanos e depois falangistas espanhóis, teve uma terrível consequência política em Portugal: Ortega e outros intelectuais espanhóis, como estas atitudes, ajudaram a consolidar a ditadura salazarista, dado que esta se afirmava internamente como um bastião contra as ingerências externas, em particular contra as espanholas."

Carlos Fontes

A OBRA E A GRAÇA DA ESPANHA

Em virtude do que o governo espanhol vem fazendo com os brasileiros, pela forma perversa, cruel, abusiva e arrogante com que vêm sendo deportados muitos compatriotas nossos daquele país, pretendo iniciar uma pequena série, chamada "As caras da Espanha", para nos lembrar de alguns bons exemplos do que é ser espanhol. Para mostrar que o lobo perde o pelo, mas jamais o vício, comecemos então nossa análise com este excelente texto de Por Voltaire Schilling, publicado originalmente no CMI:

"Que não viessem os republicanos e os liberais, como o escritor Pérez Galdós, com modismos: a verdadeira Espanha era católica ortodoxa e monarquista até as raízes. Um bastão da Contra-Reforma. Para defender a sua versão da história nacional é que Marcelino Menéndez y Pelayo, polímata eruditíssimo, editou a monumental Historia de los Heterodoxos Espanõles, que veio a público entre 1880 e 1882.

De altíssima qualidade literária, o ensaio dele tornou-se a Bíblia do tradicionalismo ibérico. No passado, no Medievo, assegurou Menéndez y Pelayo, a Igreja e o Trono viram-se ameaçados por uma interminável gama de seitas de "alumbrados", de iluminados, de místicos, de magos e bruxos, que se somavam à heresia dos luteranos, cujo objetivo final era desacreditar os valores do catolicismo e da monarquia.

Em tempos mais próximos, no campo da filosofia, por exemplo, o incômodo vinha de fora na forma do jansenismo (dissidência do catolicismo francês), do iluminismo francês (de Voltaire e caterva) e do liberalismo, com sua ênfase na secularização da sociedade e na defesa da separação da Igreja do Estado, como estava ocorrendo em boa parte do mundo de então. Menéndez y Pelayo, então um expoente da extrema direita espanhola, exaltou a Inquisição pelo seu papel inquebrantável na perseguição e eliminação efetiva de quem ousasse destruir a verdadeira Espanha: "[O Santo Ofício] fez o que era humano para atalhar o mal".

Deste modo, para ele, qualquer idéia reformista que almejasse vir a oxigenar os sombrios costumes nacionais era uma blasfêmia, merecedora de ser enfrentada com a mesma competência que o grande inquisidor Tomás de Torquemada e o cardeal Cisneros, sucessor dele, haviam tratado os heréticos no passado. Ainda que, em pleno século 20, as mulheres espanholas, sempre de preto, trancadas em casa, como García Lorca mostrou na peça La Casa de Bernarda Alba, de 1936, tivessem todos os motivos para serem batizadas de "Angústias", "Martírios", "Socorro" ou "Dolores".

Todavia, coetâneo ao aparecimento do primeiro volume da Historia de los Heterodoxos..., Pablo Iglesias, autodidata e tipógrafo, fundava em Madri, no ano de 1879, o PSOE (Partido Socialista Obrero Español), exatamente defendendo a plataforma que o erudito mais temia. Além das conhecidas reivindicações operárias, a agremiação de Iglesias tomou por bandeira a secularização da sociedade espanhola. Os socialistas espanhóis, os modernos heterodoxos, iriam revelar-se adversários formidáveis da Espanha tradicionalista de Menéndez y Pelayo, no firme intento deles de dotar o país com os costumes modernos, tão comezinhos entre países vizinhos com a França.

Entretanto, com a dolorosa guerra civil de 1936-39, ocasião em que a Espanha assemelhou-se a um matadouro no qual até os irmãos se esquartejaram, o movimento pela secularização foi suspenso. O general Franco, vitorioso, que se assinava "Caudilho pela graça de Deus" (introduzindo assim o despotismo por direito divino), quase que fundindo a Igreja e o Estado em nome de Cristo Rei, baniu ou sufocou, por 40 anos, qualquer possibilidade de o país conhecer instituições laicas, revogando a lei do divórcio de 1932 e reintroduzindo o catecismo nas escolas públicas.

Pois recentemente, mesmo transcorridos 30 anos da morte do ditador, democratizado o país, a Igreja e o Estado na Espanha voltam a estranhar-se exatamente pelas questões decorrentes da retomada da política de secularização que congelara-se na década de 30. O PSOE de José Zapatero, o herdeiro atual de Pablo Iglesias, ora no poder, quer dar seguimento à moderna legislação liberal (que parece ser tolerante com o casamento homossexual, além de aperfeiçoar a lei do aborto e o divórcio), todavia foi admoestado pelo próprio papa João Paulo II para não ir tão longe assim... afinal por lá, na Arena, ainda se pega touro pelo chifre."

3.3.08

CARTA AOS MENTIROSOS DO SBT

Me dei ao trabalho de preencher este formulário apenas pra dizer que vocês, com uma matéria ridícula e mentirosa sobre o Chávez, em que em momento algum iformam que a Colômbia invadiu o território equatoriano, não apenas perderam um telescpectador, mas ganharam um opositor para suas mentiras. O que vocês ganham mentindo? Estão a serviço de quem? Do Brasil não é, uma vez que a perigosa Colômbia faz frontira conosco, seus traidores vendidos que, de tão preocupados em falar mal do Chávez, se esqueceram de informar a verdade e se esqueceram de que existe a internet. TODAS as agências de notícias internacionais informaram a invasão e vocês não. Então, se o jogo de vocês é a mentira, do qual o Gugu já deu um excelente exemplo, eu não participo mais dele. Ouvir as mentiras de vocês é um preço alto demais a pagar para ver o Chaves. Passar bem!

2.3.08

Tudo o Que Temos

"Dez anos atrás, as companhias queriam de nós uma estratégia digital. Agora, querem uma estratégia ecológica.
Chris Hunter

Quase todos os dias em que ligamos a tevê, lemos um jornal ou acessamos a internet, nos deparamos com novos anúncios das mais recentes façanhas ecológicas de determinadas empresas. Trata-se de investimentos oriundos do setor financeiro, promessas de diminuição do gasto energético de indústrias ou preocupação com infra-estruturas mais adequadas à demanda ambiental.

Yahoo! e Google, por exemplo, chegaram a afirmaram que seus escritórios e centros computacionais não mais emitirão carbono a partir deste ano. No Brasil, a Ypê diz que investirá no plantio de milhares de árvores que compõem o bioma da mata Atlântica. Estas e outras iniciativas foram motivadas pela constatação de que uma postura empresarial voltada aos problemas ambientais seria bem vista e ainda poderia sair barata e lucrativa.

Mas alguns empreendimentos ecológicos são simplesmente inviáveis pecuniariamente, o que vem aumentando a frustração de vários ramos da sociedade. A Johnson & Johnson, que anunciou uma redução de 17% nas emissões de gases-estufa desde a década de 1990, obteve como saldo final apenas um crescimento de 24%. É evidente que reinam hipérboles e utopias. Uma mudança radical de postura por parte destas empresas é exigida, e sem real esforço, raramente atingida.

Algumas medidas parecem ser possíveis ou já estão sendo executadas, entretanto. O Bradesco, maior banco privado do Brasil, apesar de ser alvo de críticas recentes pela não-cessão das bolsas de estudo tão requeridas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, vem adotando uma série de iniciativas exemplares. A partir da criação do chamado Banco do Planeta, que tem logotipo e funcionários próprios, tal empresa já lançou o primeiro cartão de crédito feito de plástico reciclado do país, e cuja parte do lucro será repassado à Fundação Amazônia Sustentável.

Apesar de ainda haver a preocupação com o comprometimento a longo prazo, tais medidas são tudo o que temos. Até que possamos ter mais, ou que surja uma solução desvinculada do capitalismo e realmente eficaz – o que é difícil, se não uma utopia - só podemos agradecer. Afinal, por quais forem seus reais propósitos e por mais limitadas que sejam as dimensões de suas atitudes, ainda há alguém que deixe de falatório e tenha atitudes realmente concretas.


"A idéia de que posturas ecológicas são divertidas, fáceis e baratas é perigosa. Ser verde implica trabalho duro. A coisa toda é complexa. Nem sempre lucrativa. E as companhias precisam inaugurar o placar e passar efetivamente a fazer algo."
Auden Schendler

(Texto originalmente publicado n'O Irrevogável, em 6 de fevereiro de 2008.)

25.2.08

A ARTE DO NÃO PILOTO

Walter Falceta

Universalizada, a imprensa dos jornalões pilota a nave que conduz a multidão a todo lugar; portanto, a lugar algum. Diz tudo para não dizer nada. "A arte de fazer revista consiste em não compreender nada, escrever muito sobre o assunto e fazer com que o leitor tenha a ilusão de que aprendeu alguma coisa", conforme ensinava um cacique vejal.

Cabe dizer que parte da imprensa é orgulhosa do que não sabe ou do que inventa. Bate no peito e arrota estultices, doida para escalar o mais empinado arranha-céu e evacuar sobre a urbe. Assim, parece implausível que se converta por meio de qualquer esforço educativo.

Seria injustiça incluir todos os profissionais na chusma. Posto que tem gente boa no meio, ainda que cada vez menos. Mas quem tem mais chances de graduação nas casas-grandes da comunicação? Pode-se dizer que é o tarado pela servidão voluntária. Certa libido barbárica, seduzida pela chance de violação, energiza esse vampiro da pena alugada. Seis preceitos definem o pensamento desse seguidor de Sacripante:

· Ser "bom", seja lá o que isso signifique, é coisa de otários ou de bravateiros. Julga-se, portanto, por si próprio.

· Justiça social equivale (e sempre equivalerá) a esmola, valor subtraído aos que divinos merecedores da máxima abundância.

· A idéia de "oportunidades iguais" não pode, jamais, migrar do papel liberal para a realidade.

· A discordância não é motivo para instituição de debate, mas para engendramento de uma ação de vingança.

· A verdade é apenas o resultado de uma construção retórica, muitas vezes travestida de humor irônico, na qual têm validade somente os argumentos consagrados na doutrina dos financiadores.

· Se falta disposição para o esclarecimento proporcionado pelo abandono no outro, isto é, no exercício dialético, sobra energia para a cruzada de desqualificação dos oponentes.

Engana-se, entretanto, quem imagina que esse tipo de conduta doentia permeie apenas o noticiário e o colunismo de Política e de Economia. Está presente em todos os setores da mídia e em todas as redações. Há sacripantas inchados de egocentrismo nos aquários das editorias de Ciência, Artes e Espetáculos, Esportes, Cidades e até nas baias dos pândegos.

Erra quem imagina que os receptores estejam alheios a essa deterioração acelerada dos conteúdos oferecidos pelos grandes veículos de comunicação. Um tour pelas comunidades de relacionamento da Internet será suficiente para mostrar o descontentamento do público consumidor. Há quem reclame dos "marrons" da imprensa esportiva, quem não suporte mais a empáfia dos críticos musicais e também quem tenha simplesmente desistido de assistir à bufonaria de William Homer e Fátima Bernardes.

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